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MATANDO UM LEÃO POR DIA (parte 1)

Ao longo da história (desde o século III a.C.) foram encontrados bonecos criados para se mover automaticamente e imitar alguns gestos humanos. Se utilizando de engrenagens essas figuras foram construídas para ter movimentos repetitivos que eram acionados por alavancas, elas recebiam o nome de autômatos. Os autômatos sempre foram objeto de curiosidade e espanto, pois aquele ser inanimado assim que estivesse ligado faria movimentos semelhantes a um ser humano, porém sem a autonomia suficiente de pensar, sentir e refletir para agir de forma independente de sua programação.


Hercules contra o leão
Hércules contra o leão


Em nossa vida diária, muitas vezes não percebemos os paradoxos, absurdos, vazios e inversões de valores porque estamos imersos em nossas rotinas. Não refletimos e reagimos as condições como autômatos, sem nos darmos conta da desvalorização de nossa existência, buscamos adquirir produtos que restabeleçam o sentido de valor. Como resultado, somos consumidos por problemas, crises e doenças da alma, que são maneiras da vida nos alertar de que algo não está certo.

Mesmo assim, cotidianamente continuamos a "matar um leão por dia", uma metáfora para as lutas diárias. Essa expressão é usada para nos referir aos problemas do dia a dia que precisamos enfrentar e resolver, seja no trabalho, na família, na escola ou na rua. Onde quer que estejamos, vamos precisar "matar um leão". Provavelmente, esse ditado popular faz referência ao mito de Hércules (chamado assim pelo povo romano), mas para os gregos seu nome é Herácles.

Hércules, filho de Zeus (o rei dos deuses) e de uma mortal, é renomado por sua imensa força. Relata-se que, em sua tenra idade, enquanto sua mãe se ocupava com tarefas domésticas, Alcides — o nome pelo qual Hércules era conhecido antes de alcançar a fama como herói — divertia-se com areia no quintal de sua residência. Durante essa inocente brincadeira, duas serpentes surgiram com a intenção de picá-lo. Com uma força descomunal para sua idade, o bebê Alcides capturou ambas as serpentes e, sem plena consciência de seu ato, as exterminou, prosseguindo com suas brincadeiras como se nada extraordinário tivesse ocorrido.

Quando Alcides cresceu, tornou-se um grande herói e o rei Euristeu o convocou para realizar 12 tarefas impossíveis para um homem normal. O primeiro dos doze trabalhos de Hércules foi matar o Leão de Nemeia. Havia uma aldeia próxima às planícies de Nemeia que estava sendo aterrorizada por um gigantesco leão. Esta criatura temível tinha uma pele impenetrável, o que tornava qualquer arma inútil contra ela. Durante a luta, Hércules se viu forçado a usar seus próprios braços e sua força para estrangular o leão. Daí pode ter vindo a ideia para o nome do golpe de enforcamento com os braços, o "mata-leão". 

Após derrotar a besta, Hércules usou as próprias garras do leão para cortar a pele do animal e matá-lo. Depois vestiu a pele da fera como uma armadura, tornando-se quase invulnerável em batalhas futuras. Este ato não só demonstrou a força física de Hércules, mas também sua habilidade em superar obstáculos aparentemente insuperáveis, um tema recorrente em suas lendárias façanhas.

Matar um leão por dia não é uma tarefa fácil, porém é necessário. Precisamos entender que o leão nesta história é um símbolo de força e pode também evocar aquilo que sentimos ao estarmos certos de nosso poder e força: orgulho. Quando estamos vitoriosos ou certos de nossa vitória, nos sentimos orgulhosos. Neste sentido, o leão é uma metáfora do primeiro passo em nossa jornada: vencer o orgulho.

Para vencermos o orgulho, não podemos usar de artifícios engenhosos ou espadas; precisamos aprender a controlar nosso ímpeto, respirar fundo e segurar o fôlego quando necessário. Assim como Hércules precisou enforcar o leão, é necessário sufocar os ímpetos de animosidade. Sufocar o ego. Entender que não estamos no controle de tudo; somos frágeis e sujeitos à vida.


Continue o texto na parte 2 de MATANDO UM LEÃO POR DIA


(Texto baseado em palestra apresentada)

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